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- O COLOSSO PERCHERON

O COLOSSO PERCHERON
 
De todos os cavalos que desfilaram pela Expointer este ano, nenhum atraiu mais a atenção do público que ele. Nenhum foi mais fotografado e admirado. Ele brilhou na pista, na baia, nos corredores entre os pavilhões por onde circulou. Toda vez que seu dono Hans Louis Wisnheski o tirava da baia, causava um pequeno alvoroço. O povo parava, deslumbrado e incrédulo com seu tamanho, perguntando-se que animal era aquele, de qual raça, para quê servia. E as máquinas fotográficas disparavam.
 

Átila Paraíso é o nome do colosso tordilho da raça Percheron, de 1,71m (cernelha), 4 anos e 772 quilos, altura total acima de 2m e ferradura nº 27 (quando os cavalos comuns “calçam” nº 22 ou 24) e ele ainda está em crescimento. Medidas descomunais para os olhos gaúchos, acostumados a raças de menor proporção. Ele caiu no gosto do público, que ficava maravilhado ao vê-lo passar. A ele, o Canal Rural, da TV Globo, dedicou nada menos do que quatro minutos em sua programação ao vivo da Expointer, apresentando o Julgamento de Classificação, quando Átila ganhou o 1º lugar em sua categoria e o prêmio de Grande Campeão da Raça.
 

O garanhão, filho de pais franceses, mas nascido no Brasil, foi apresentado na Expointer/2007 a convite da ANC, com a intenção de divulgar novamente a raça em nosso país, pois 2003 foi o último ano em que um exemplar se fez presente ao Parque de Exposições Assis Brasil, em Esteio. “A raça Percheron foi muito utilizada pelos nossos antepassados, quando tudo era movido à tração animal, mas, com a mecanização da lavoura a partir dos anos 70, a raça perdeu muito para os tratores”, relembra o proprietário do animal.
 

Sonho de criança
Ter cavalos Percheron era o sonho do menino Hans, do município de São Bento do Sul, em Santa Catarina, que não descende de família ruralista. Foi através de um programa de incentivo da CIDASC (Companhia Integrada de Desenvolvimento Agrícola de Santa Catarina), por volta de 1980, quando tinha 10 anos, que ele conheceu os animais. A companhia distribuiu 16 garanhões Percheron, todos adquiridos no Rio Grande do Sul, para atuarem nos postos de monta em todo o Estado, com o propósito de incentivar o pequeno agricultor a ter cavalos de tração com mais porte e de melhor qualidade. “A partir daí, ficou na minha memória esse sonho de um dia conseguir criar a raça”, conta Hans. Até que em 2003, ele conseguiu iniciar a criação. Aí começa a história de Átila.
 

 Temperamento dócil
O cavalo foi adquirido em São Paulo, por intermédio da técnica da ANC Suzana Cintra, que indicou o animal, então da propriedade do criador Miguel Pacheco Chaves. Átila tinha 9 meses. “Seus pais são importados da França, onde sua mãe foi campeã em vários concursos, então ele tem um pedigree invejável aqui no Brasil”, salienta Hans.
 
Já na Estância do Córrego, em São Bento do Sul, começaram os cuidados, com alimentação especial - à base de ração, milho triturado, suplemento de alfafa e feno de qualidade, que se mantém até hoje. Por ser um animal muito dócil e calmo, Hans o deixa o máximo possível solto no campo, sem prendê-lo em estábulos ou baias.
 
Quando atingiu 2 anos, foi feita a primeira doma para iniciar a tração animal, sua principal vocação. Domar um Percheron é muito simples, segundo seu dono. Hans explica que, por ser uma raça muito rústica, o Percheron não sente a doma como outras raças; requer uma técnica mais racional, sem violência ou que exija muito do animal. “Tenho até o costume de dizer que os Percheron nos ensinam a trabalhar e não a gente a domá-los. Dá-se apenas uma noção de rédeas e o restante é a força bruta dele que faz”, conta o criador, com indisfarçável orgulho.
 
Nestes quatro anos, Átila cresceu muito em estrutura e altura. Nos últimos seis meses, seu dono percebeu o desenvolvimento principalmente em largura, já que em altura os ossos crescem até os dois anos e meio. A partir de agora, começará a tomar a forma de cavalo adulto, pois é uma raça tardia – desenvolve-se até os sete anos. Quando chegar lá, Átila terá 1,73m de altura e estará muito próximo ou acima dos mil quilos!
 

Usos e Mercado
De resistência imbatível para trabalhos agrícolas, apesar de lerdo devido à menor agilidade, o Percheron é capaz de trabalhar um dia inteiro fazendo tração. “Em tempos mais antigos, era comum no sul do Rio Grande do Sul cruzarem o Percheron com os Crioulos, de onde se tiravam animais mestiços com rusticidade excepcional. Eles trabalhavam o dia todo sem se cansar e continuavam sempre ativos”, lembra o criador. 
 
O pecuarista afirma que o uso do cavalo Percheron se torna muito mais barato ao pequeno agricultor no longo prazo do que um trator ou qualquer outro implemento agrícola, devido ao baixo custo de manutenção do animal, cuja vida produtiva é de 20 anos em média. Ele observa que em certos países europeus como França e Alemanha, raças do mesmo estilo e porte, como Bretão, Normando, Bolonaise, Ardenais, Conclat ou Belgasão ainda muito utilizadas em pequenas propriedades. “Se na Europa isto funciona, por que não irá funcionar aqui no Brasil, principalmente para a pequena propriedade?” – coloca Hans.
 
O mercado para o cavalo Percheron no extremo Sul do país ainda é bastante reduzido, mas vem se expandindo bem a partir de Santa Catarina até o Rio de Janeiro. Hoje, ele é especialmente usado nos minifúndios agrícolas que predominam na paisagem catarinense. Mas a raça vem suscitando grande interesse na área de turismo, na indústria madeireira para extração em locais de difícil acesso a máquinas, e nas éguas como amas de leite para outras raças, pois são excepcionalmente leiteiras, chegando a produzir 12 litros por dia.
 
Segundo Hans, há pequenos focos de criatórios no sul do RS, mas a maior utilização da raça é nas lavouras de fumo de Santa Catarina, em alguns pontos no interior do Paraná e em São Paulo e Rio de Janeiro, onde é explorada para o turismo, como em passeios de carruagem ou em montaria, inclusive por crianças. Detalhe: o Percheron é muito dócil mesmo, avisa Hans: “Ele assusta pelo tamanho, mas isso é totalmente superado pelo comportamento do animal, muito educado e obediente, que respeita muito o seu dono”.
 
É possível também cruzá-lo com outras raças de médio porte para se obter cavalos com estrutura um pouco maior, prática comum em Santa Catarina. Mas na Estância do Córrego, Hans só faz cruzamentos puros. Lá, o garanhão Átila Paraíso reina soberano entre 12 éguas, sete delas prenhes. O criador está aguardando o nascimento dos primeiros filhos agora no verão, quando irá avaliar os produtos e só então pensar na venda de coberturas.
 
A maior dificuldade para iniciar uma criação é encontrar matrizes puras. “Essa pergunta eu me fiz quando comecei e veio daí minha maior decepção: a falta de produtos no mercado. Não se encontra éguas puras com registro facilmente como em outras raças, já que existem muito poucos exemplares de Percheron. Esperamos que daqui para a frente a gente consiga multiplicar cada vez mais”, aposta o produtor catarinense.
 
Hans Louis Wisnheski é o único criador de animais puros de Santa Catarina. No mercado, uma égua pura está custando entre R$ 10 mil e R$ 15 mil. Animais mestiços, a partir de R$ 1.500,00 até R$ 8 mil, dependendo do grau de sangue. Dizer o preço de um garanhão como o seu, para ele é difícil. “Sentimentalmente, não tem preço”, responde sorrindo.
 
 
Textos:
Lenora Vargas - Jornalista - Mtb 4029